Anexo I · Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial
Ficha de Inventário
A ficha oficial da manifestação: identificação, caracterização, transmissão, historial, documentação, direitos e património associado.
19 de 20 campos respondidos · 1 em aperfeiçoamento ou recolha
Domínio
●RespondidoPráticas sociais, rituais e eventos festivos
Categoria
●RespondidoRituais Coletivos
Denominação
●RespondidoFachos de Machico
Outras denominações
●RespondidoFesta dos Fachos de Machico
Contexto tipológico
●Respondido5. Contexto tipológico
Os Fachos de Machico são uma manifestação cultural inserida na tipologia dos rituais coletivos que envolvem o uso do fogo em contextos festivos e religiosos, com raízes na memória histórica da comunidade. No plano local, a manifestação articula-se com o legado material e toponímico do sistema defensivo: o Pico do Facho — elevação sobranceira à vila a 330 metros de altitude — dá nome e memória a uma prática que o Elucidário Madeirense descreve como “acender fogueiras no cimo dos picos para avisar as povoações de que velas inimigas estavam à vista” (MENESES & SILVA, 1998, vol. II). Dentro do próprio calendário festivo de Machico, o uso de archotes durante a procissão noturna da Festa do Senhor dos Milagres (outubro) estabelece uma continuidade simbólica ao longo do ano litúrgico, sendo o único paralelo local relevante. No restante arquipélago da Madeira não existe prática equivalente: as referências ao fogo nas festividades religiosas madeirenses circunscrevem-se ao fogo de artifício, de natureza e propósito distintos. Esta ausência de paralelo regional é, em si mesma, um indicador da singularidade dos Fachos de Machico no contexto insular português. Já Carlos Cristóvão sublinhava tratar-se de «uma prova espontânea da fé pura e sã do povo, exclusivamente apresentada na Madeira, na Festa do Domingo do Senhor de Machico» (CRISTOVÃO, 1989). No plano nacional, é possível identificar práticas que partilham com os Fachos o uso do fogo coletivo como elemento central de uma celebração comunitária, ainda que temporalmente e simbolicamente distintas: as Fogueiras de São João, celebradas em junho em todo o país e com especial expressão no Norte de Portugal, e o Madeiro de Natal, fogueira comunitária acesa na véspera de Natal em várias localidades do interior, nomeadamente na Beira Interior e Trás-os-Montes. Em ambos os casos, o fogo cumpre uma função de agregação social e de marcação do calendário festivo, aproximando-se dos Fachos na dimensão comunitária e ritual, embora sem a componente iconográfica, a origem defensivo-militar ou a integração numa festividade eucarística que caracterizam a manifestação machiquense. No plano internacional, destacam-se afinidades com as festas galegas do fogo conhecidas como Fachós ou Fachos (Galiza, Espanha). O paralelo mais próximo é a Festa dos Fachós de Castro Caldelas (Ourense), documentada desde meados do século XVIII (1751) e associada ao culto de São Sebastião, na qual tochas de palha são transportadas em cortejo noturno em redor da vila. Uma expressão mais recente e de natureza distinta encontra-se na Festa dos Fachos de Redondela (Pontevedra), de raiz oitocentista e recuperada em 1997, que assinala o solstício de verão num registo profano. Em ambos os casos há um ritual comunitário de fogo, embora distinto na forma — os fachós galegos são tochas transportadas em cortejo, enquanto os Fachos de Machico são figuras alegóricas fixas acesas em simultâneo nas encostas. A inexistência de paralelos regionais e a singularidade da forma, da organização comunitária e da origem defensivo-militar documentada tornam os Fachos de Machico uma manifestação única no panorama do património cultural imaterial português, com afinidades — mas sem equivalente direto — no espaço ibérico.
Contexto de produção
●Respondido6. Contexto de Produção
6.1. Contexto Social
6.1.1. Comunidade(s)
A população de Machico, no seu conjunto, é a principal comunidade detentora desta manifestação. É ela que transmite os saberes, mantém a ligação afetiva à prática e lhe confere o valor simbólico de expressão identitária. O envolvimento é plural: famílias inteiras participam na preparação, emigrantes regressam propositadamente para colaborar, entidades locais e culturais e mesmo os visitantes, integram-se nas atividades, e os grupos de vizinhos unem-se em torno do objetivo comum de "fazer o facho" no seu sítio. É este tecido comunitário complexo, alargado e multidimensional que legitima os Fachos como património cultural imaterial e que assegura, pelo carinho nutrido pela comunidade detentora, a sua continuidade no tempo.
Esta comunidade alargada organiza-se territorialmente em comunidades de sítio: as gentes de cada lugar da freguesia que, ano após ano, concebem, constroem e acendem o facho do seu sítio. Nos dias de hoje os participantes nem sempre pertencem ao sítio, sendo a sua participação incentivada por amigos ou conhecidos daquele grupo. São atualmente dez as comunidades com facho ativo, identificadas na tabela seguinte com os respetivos responsáveis:
| Facho / Sítio | Responsável(eis) |
| Facho da Banda d'Além | António Viveiros |
| Facho da Pontinha da Serra | Dino Abreu |
| Facho da Ladeira | Magno Gomes (assist. Pedro Spínola) |
| Facho da Graça | Mário Franco e Filipe Gouveia |
| Facho da Serra d'Água | Fábio Santos (assist. Nelson) |
| Facho da Vila | Élio Costa (Ass. de Apicultores da Madeira e Porto Santo) |
| Facho da Misericórdia | Ricardo Vieira e Miguel Vieira |
| Facho da Pontinha | Luís Aveiro e Nélio Aveiro |
| Facho do Paraíso | Helder Cristiano e Afonso Abreu |
| Facho da Ribeira Seca – Furna da Lapa (Sítio do Poço do Gil) | Isidro Ribeiro e João Olim |
Fachos extintos:
Facho da Trincheira (Ribeira de Machico) — Existia um facho que ardia dentro do principal curso de água de Machico, na Ribeira de Machico. Este facho era realizado pelas gentes da Banda d'Além. À posteriori, o Facho da Banda d'Além passou à localização atual. Deixou de se realizar o Facho da Trincheira por efeito da passagem do tempo, da renovação de gerações e dos ciclos de decadência da tradição.
Facho do Piquinho — O facho do Sítio do Piquinho, distinguia-se dos demais por ser iluminado com recurso à luz elétrica – criando uma custódia de tamanho considerável. Era mantido por um grupo que optou por não realizar o facho tradicional, e recorreu à eletrificação da estrutura como forma de colmatar eventual envelhecimento do grupo e falta de membros; Este facho acabou por extinguir-se, tendo sida encontrada uma solução pela Câmara Municipal de Machico que consistiu em transitar esta figura para terrenos camarários atrás da Santa Casa da Misericórdia, no sopé do Pico do Facho – que hoje apresenta uma semelhante custódia à que o sítio do piquinho realizava.
6.1.2. Grupos
A manifestação, apesar de centrar-se nas comunidades dos sítios, articula-se com um conjunto de grupos e entidades — associativos, religiosos e institucionais — que apoiam, coordenam e viabilizam a manifestação. Se no passado, este movimento espontâneo era puramente comunitário, hoje os grupos referidos têm, em boa medida, o onús sobre a continuidade deste certame.
Associação Cultural e Recreativa do Facho da Ladeira
Esta Associação apesar de ter iniciado o seu percurso numa prespectiva puramente logística, tornou-se no ponto focal entre os vários fachos e as entidades. É a entidade coordenadora dos grupos e da logística.
Paróquia de Machico
A Paróquia é a entidade organizadora da Festa do Santíssimo Sacramento, sendo esta a festividade que integra e acolhe oficialmente a manifestação dos Fachos de Machico.
Casa do Povo de Machico
A Casa do Povo presta apoio de longa data em todas as iniciativas dinamizadoras da cultura, contribuindo adicionalmente em todas as edições com um apoio alimentar ou com um convívio para os grupos.
Câmara Municipal de Machico
A Câmara Municipal é a entidade que mais relevância possui no âmbito do licenciamento e da definição, em conjunto com a Paróquia, dos moldes de execução dos Fachos de Machico, competindo-lhe o licenciamento, a logística, a gestão do trânsito e ainda os importantes apoios financeiros para a realização do evento.
Junta de Freguesia de Machico
A Junta de Freguesia é um importante parceiro de todos os grupos pela ação de proximidade, contribuindo para a limpeza e execução através da cedência de equipamentos, transportes e meios logísticos. A Junta de Freguesia também apoia os grupos através de bens alimentares.
Bombeiros Municipais de Machico
Os Bombeiros Municipais são uma entidade cuja colaboração é imprescindível para que se garantam as condições de segurança necessárias ao evento. Além de propiciarem todo o apoio nas queimadas preventivas que antecedem os fachos, onde são limpas as imediações, esta corporação garante a vigilância de segurança durante o evento.
6.1.3. Indivíduo(s)
Os indivíduos mencionados, os responsáveis atuais pelos fachos, assumem nesta inventariação um papel de guardiões de saberes técnicos, assim como uma vertente de liderança, enquanto agentes motivadores das comunidades. Mestres locais e responsáveis operativos transmitem conhecimentos sobre construção, segurança e ritual, assegurando a fidelidade da tradição e a sua adaptação a novas gerações. São centenas os participantes individuais que, no conjunto, preparam os terrenos, enrolam o algodão, vigiam os materiais, transportam tudo para os fachos e acompanham os trabalhos. Destacam-se, enquanto responsáveis operativos pelo facho de cada sítio (cf. tabela do campo 6.1.1):
António Viveiros — responsável do Facho da Banda d’Além.
Dino Abreu — responsável do Facho da Pontinha da Serra.
Magno Gomes — responsável do Facho da Ladeira, com a assistência de Pedro Spínola.
Mário Franco e Filipe Gouveia — responsáveis do Facho da Graça.
Fábio Santos — responsável do Facho da Serra d’Água, com a assistência de Nelson.
Élio Costa — responsável do Facho da Vila, em representação da Associação de Apicultores da Madeira e Porto Santo.
Ricardo Vieira e Miguel Vieira — responsáveis do Facho da Misericórdia.
Luís Aveiro e Nélio Aveiro — responsáveis do Facho da Pontinha.
Helder Cristiano e Afonso Abreu — responsáveis do Facho do Paraíso.
Isidro Ribeiro e João Olim — responsáveis do Facho da Ribeira Seca – Furna da Lapa (Sítio do Poço do Gil).
Especificidades
A comunidade de Machico, no seu conjunto, é a detentora desta manifestação, que é provavelmente uma das tradições mais antigas e com mais valor aglutinador da comunidade: a comunidade de Machico nutre um especial carinho pelos Fachos de Machico. Daqui resulta a ubiquidade na transmissão dos saberes, na preservação da ligação afetiva à prática e confere-lhe este valor de expressão identitária, de certa foprma único: mobiliza famílias, marca a agenda de emigrantes que regressam a casa propositadamente naquela altura. Estudantes deslocados que voltam a encontrar o grupo que se une sempre, naquele lugar pré-estabelecido. E todos os fachos, à sua maneira, organiza-se e labora em prol do objetivo comum de “fazer o seu facho”, cada qual em cada sítio.
As dez comunidades de sítio são os núcleos operativos da manifestação: cada uma concebe, constrói e acende anualmente o facho do seu sítio, procede às adaptações e melhoramentos no motivo iconográfico e mobiliza dezenas de voluntários, em regime rotativo, para a limpeza dos terrenos, a preparação das bolas de algodão, na preparação dos espaços comuns, no transporte dos materiais e nas demais tarefas que os vários grupos têm. Entre estas comunidades, distingue-se o Facho da Ladeira, erguido diretamente no solo ao longo do Caminho das Voltinhas — sendo esta, na verdade, a modalidade mais antiga da tradição, onde os fachos eram realizados no solo. Nota para a manutenção da execução do Facho da Vila, que hoje está à responsabilidade da Associação de Apicultores da Madeira e Porto Santo após a ameaça de não realização. Esta é uma referência importante porque demonstra que a comunidade está preparada para colmatar estes efeitos dos tempos. Apesar de ser o Facho da Vila, não é necessariamente realizado pelas gentes daquele sítio. A competição é hoje salutar entre os sítios funciona como motor de inovação e de coesão comunitária.
A Associação Cultural e Recreativa do Facho da Ladeira é o ponto focal entre os grupos e as demais entidades: nascida para o acompanhamento e o apoio logístico ao certame, evoluiu para uma missão de conservação e salvaguarda do património, centralizando a aquisição e a distribuição de materiais e representando os grupos coletivamente.
A Paróquia de Machico acolhe a manifestação dos Fachos de Machico desde que a festividade assume esta forma. É a Paróquia que verdadeiramente organiza e promove a Festa do Santíssimo Sacramento — na qual os Fachos de Machico, se integram. É o pároco, Cón. Manuel Ramos, que dá o sinal oficial de acendimento, com o repique dos sinos. A Casa do Povo de Machico apoia o certame há muitos anos, quer através da promoção do evento na comunicação social como também através de meios alimentares, sob a forma de vale ou de um jantar de convívio com os grupos.
Entre as entidades governamentais do concelho, a Câmara Municipal de Machico é a entidade que mais relevância tem em toda a Festa, e também na manifestação. Isto porque não só licencia a Festa, mas disponibiliza os serviços municipais de bombeiros e proteção civil, algo imprescindível para colmatar todas as necessidades que existem em termos de segurança e na preparação dos locais. Esta importância é reforçada também na vertente dos apoios logísticos que são providenciados no âmbito da organização geral do evento – seja na gestão urbana e das vias públicas mas também em toda a colaboração e disponibilidade para criar um evento com qualidade. Por último mas não menos importante, a Câmara Municipal dedica à manifestação dos Fachos de Machico uma verba importante, seja quando se tratam de renovações de estruturas, quer quanto aos materiais e aos equipamentos de segurança e bens alimentares.
A Junta de Freguesia de Machico assegura um acompanhamento de proximidade que permite que aos grupos uma melhor capacidade de realizar os vários trabalhos de preparação, sobretudo em termos de limpezas das imediações, onde muitas vezes os equipamentos são cedidos, sem quaisquer encargos, diretamente aos grupos para que os utilizem. Igualmente a Junta de Freguesia presta apoio em transportes pontuais que sejam necessários, muitas vezes ajustando-se aos horários pós-laborais dos trabalhos nos fachos, também envolvendo-se nestes trabalhos. A Junta de Freguesia proporciona também um importante apoio alimentar para os vários grupos de executantes.
Os Bombeiros Municipais de Machico são a entidade que permite que os Fachos de Machico se realizem com segurança por trabalharem em proximidade com os vários sítios. É realizada a verificação dos locais para limpar pelos participantes para que depois possam ser realizadas as queimadas preventivas dos materiais combustíveis apanhados, mas igualmente de forma a criar um perímetro de segurança nas zonas onde decorrem os acendimentos. A colaboração e disponibilidade da Corporação de Machico é imprescindível para a continuidade do certame em segurança;
No plano individual, os responsáveis pelo facho de cada sítio — identificados na tabela do campo 6.1.1 — atuam como guardiões dos saberes técnicos e são os líderes destas comunidades: são quem propicia a transmissão dos conhecimentos, dos métodos, quem garante a união do grupo e a continuidade do ritual entre as novas gerações. São quem mobiliza os voluntários, do seu sítio ou não, e são os que respondem pela preparação e pelo acendimento do facho em segurança. É nesta cadeia de responsáveis, renovada de geração em geração, que assenta a continuidade operativa da manifestação. Num plano mais contemporâneo, são estes responsáveis que também planificam e coordenam toda a manifestação através das reuniões e planeamentos conjuntos promovidos com a Paróquia e demais entidades, promovidos pela Associação Fachos.
6.2. Contexto Territorial
6.2.1. Local: Machico
6.2.2. Freguesia: Machico
6.2.3. Município: Machico
6.2.4. Distrito: Não aplicável — Região Autónoma da Madeira (RAM)
6.2.5. País: Portugal
6.2.6. NUTS II: Região Autónoma da Madeira
6.2.7. NUTS III: Região Autónoma da Madeira
6.2.8. Coordenadas geográficas: 32°43′N, 16°46′W (vale de Machico, centro territorial da prática). A georreferenciação individual dos sítios onde se erguem os fachos consta da documentação cartográfica (Anexo II-B/4).
6.3. Contexto Temporal
6.3.1. Periodicidade: Anual
6.3.2. Data(s)
A vigília dos fachos ocorre na noite de sábado que antecede o último domingo de agosto, integrando as celebrações do Santíssimo Sacramento. O acendimento sincronizado dá-se pelas 21h30, após o repique solene dos sinos da matriz e uma salva de foguetes.
Especificidades temporais:
A preparação inicia-se logo após o término da edição, onde são feitos levantamentos de materiais sobrantes e de necessidades para os anos seguintes, de forma a serem acolhidas pela Associação. No início do segundo trimestre, são feitos novos inventários de materiais, de forma a ser realizada a orçamentação dos materiais necessários às atividades a que a associação se propõe. No terceiro trimestre são realizadas várias reuniões, com a paróquia e demais entidades locais. Por fim, reúnem-se todas as entidades com os responsáveis pelos Facho de forma a definir todos os aspetos referentes à operacionalização - das limpezas dos terrenos ao acendimento — a imprensa regional documenta que "a limpeza dos terrenos e as queimas preventivas já começaram em julho".1 Em junho realiza-se a reunião conjunta no Centro Pastoral do Senhor dos Milagres. Na última semana de julho e ao longo de agosto, intensificam-se os trabalhos de construção e montagem. O sábado culmina no acendimento; Pontualmente, um facho pode ser aceso noutros contextos festivos: em 2024, no Mercado Quinhentista de Machico (junho) por convite da entidade organizadora; A Festa do Senhor dos Milagres (outubro), é frequentemente adornada com o acendimento do Facho do Paraíso.
Caracterização
●Respondido7. Caracterização
7.1. Caracterização Síntese
Os Fachos de Machico são uma manifestação cultural espontânea e comunitária inserida numa solenidade religiosa que decorre anualmente na noite de sábado que antecede o último domingo de agosto. Durante o primeiro dia das celebrações da Festa do Santíssimo Sacramento, pelas 21h30, ao repique solene dos sinos da Igreja Matriz e ao som de uma salva de foguetes, culmina o trabalho de semanas de centenas de participantes. As encostas do vale de Machico iluminam-se em uníssono: dez grupos, sediados em diferentes sítios da freguesia, acendem em simultâneo milhares de bolas de algodão dispostas em estruturas de aço e que servem de tela de vários motivos iconográficos — custódias, cruzes, cálices, caravelas, corações e peixes. Os fachos são um trabalho árduo de semanas e ardem entre cerca de trinta minutos a uma hora, perante milhares de espetadores, que apreciam as figuras em fogo os vários pontos das montanhas que abraçam o vale de Machico.
As origens desta manifestação remontam aos séculos XVI a XVIII, quando fogueiras de alerta eram acionadas de pico em pico para anunciar a aproximação de corsários — sistema defensivo de que o Pico do Facho, sobranceiro à vila, ainda conserva (a vigia em alvenaria e o topónimo). Com o declínio da ameaça marítima, o gesto e o ofício metamorfoseou-se e, no início do século XX, os registos mostram a integração dos Fachos em várias solenidades, tendo fixado temporalmente a sua execução periódica na Festa do Santíssimo Sacramento. Tornou-se assim uma importante congregação social — enquadrada nas solenidades populares então organizadas pela paróquia, à época um dos principais polos da vida comunitária que mantinha um forte vínculo com a comunidade —, e preserva e celebra coletivamente a memória da defesa do território e o vínculo de Machico ao mar.
A iconografia dos fachos condensa esta dupla identidade: a luz, que evoca a luz de Cristo, e os motivos marítimos, que celebram a vocação piscatória da terra. A execução mantém-se estritamente comunitária e intergeracional — há fachos onde estão presentes famílias inteiras, outros são local de convívio entre residentes e emigrantes que regressam propositadamente para colaborar e para conviver. Os estudantes deslocados que colaboram e que partilham esta tradição além mares. A comunidade trabalha, cada um à sua maneira, durante meses, e reúnem participantes de todas as idades e muitas vezes até de fora do seu sítio. A inexistência de prática equivalente no restante arquipélago e a singularidade da sua forma, organização e origem defensivo-militar fazem dos Fachos de Machico uma manifestação única no panorama do património cultural imaterial português.
7.2. Caracterização Desenvolvida
Nos dias de hoje, os Fachos de Machico como os conhecemos são uma manifestação centenária e inscrevem-se no ciclo festivo da Festa do Santíssimo Sacramento, celebrada anualmente no último fim de semana de agosto. A manifestação, apesar de ser um resquício militar, configura-se no contemporâneo como uma articulação entre o sagrado e o profano. Nas palavras da historiadora Isabel Gouveia, este é um dos traços mais distintivos desta manifestação:
“há aqui uma ligação entre o profano e o religioso [...] a própria iluminação dos fachos na festa do Santíssimo Sacramento... a luz dos fachos ilumina a luz de Cristo, a luz divina.”2
Esta dimensão espiritual é reconfirmada pelo pároco de Machico, Cón. Manuel Ramos, para quem a manifestação é
“sobretudo uma expressão de louvor, de agradecimento a Deus, à proteção divina. Por isso aparecem as caravelas, sinais do trabalho dos pescadores, sobretudo, antigamente, mais do que hoje, isto é uma terra pescatória, esse louvor, esse agradecimento na Festa do Senhor.”3
O professor Manuel Spínola e Presidente da Casa do Povo de Machico, explica também a sua visão da manifestação, onde sintetiza esta dupla natureza, ora de fé ora de tradição e história:
“isto não só é um ato de fé, mas também é um ato de história, da nossa tradição. E nós temos que pensar que isto também faz parte da história da nossa terra.”4
A manifestação organiza-se em torno de dez comunidades que representam cada uma o seu sítio, o local onde a comunidade reside (ver tabela no campo 6.1.1). Estas comunidades realizam e praticam a manifestação nas imediações das residências ou mesmo no local do facho. A coordenação supragrupal é assegurada por uma constelação de entidades que o Cón. Manuel Ramos descreve:
“todos os preparativos já acontecem há algum tempo, com os diversos grupos, diversas equipas que fazem os fachos, depois com a cooperação das instituições públicas, a Câmara Municipal, a Junta de Freguesia, a Casa do Povo, também a Associação do Facho da Ladeira, e é na interação destas [entidades] que incentivam a realização dos fachos.”5
A dimensão de coordenação institucional é também valorizada pelo ex-presidente da Câmara Municipal, Ricardo Franco, ao salientar que "os espaços são limpos, há uma queima preventiva em toda a periferia do espaço onde existe o facho. Todo esse trabalho é coordenado e executado pela nossa corporação de bombeiros".6 Este ecossistema de cooperação — comunitário, religioso, associativo e institucional — é o que garante que a manifestação ocorra com segurança e escala crescente.
A preparação dos fachos é um processo contínuo que ocupa praticamente o ano inteiro, mas concentra-se no terceiro trimestre do ano. Durante o início do ano são realizados apenas trabalhos de planificação, orçamentação e auscultação dos grupos. Em julho realiza-se a reunião conjunta de todos os grupos no Centro Pastoral do Senhor dos Milagres, onde a Paróquia articula a logística e faz o briefing coletivo e onde participam também as entidades institucionais e bombeiros. É nesta altura que os trabalhos no terreno intensificam-se, meses antes do evento. António Costa (Facho da Ladeira) descreve o que implica a preparação do espaço:
“o terreno já está, de certa forma, limpo para prevenir, durante os acendimentos, situações mais inesperadas e indesejáveis, e o nosso trabalho acaba por ser também o de cortar as madeiras, transportá-las e distribuí-las ao longo do caminho real, do caminho das voltinhas, e quando estamos aqui trabalhamos.”7
Em paralelo, cada grupo trata da manutenção das suas estruturas. Miguel Vieira (Facho da Misericórdia) descreve a rotina:
“as bolas já conseguimos fazer durante a semana, hoje vamos vir aqui dar uma reparação na armação do facho, para ver se está tudo em ordem [...] hoje vêm uns, amanhã vêm outros, depende dos trabalhos, há muita gente às vezes que trabalha, ficam com pena.”8
Os recursos financeiros provêm maioritariamente de contribuições voluntárias recolhidas pelos sítios, complementadas por apoios da Câmara Municipal e da Junta de Freguesia.
O facho é o elemento central e mais exigente da manifestação. Cada grupo escolhe se mantém ou reformula o seu motivo iconográfico — custódias, cruzes, cálices, peixes, barcos, corações, figuras alusivas à história local ou mesmo nomes de participantes que tenham falecido recentemente. É um processo que combina tradição, criatividade mas que também induz o espírito de grupo e a vontade de melhorar face ao ano anterior. A competição entre os Fachos, que era no passado mais agerrida, hoje é saudável e de real camaradagem e entreajuda entre todos os grupos. O Cón. Manuel Ramos observa que "os sítios, cada sítio procura esmerar-se no melhor facho, na melhor caravela, no melhor sinal, na melhor festa que acontece também na realização do facho, mas é uma concorrência salutar, positiva, ótima".9
A técnica construtiva é descrita pelo professor Manuel Spínola:
“praticamente a estrutura está feita e a técnica continua, que é a bola de desperdício com óleo embebido no óleo e depois é colocado estrategicamente a fazer os desenhos para que depois possamos ter aquela imagem fantástica que é a imagem dos fachos.”10
O processo de preparação das bolas de algodão é uma das tarefas mais morosas e socialmente ricas: reúne membros de todas as idades em sessões de trabalho coletivo que são também momentos de convívio e transmissão de saber. Afonso Abreu (Facho do Paraíso) explica o processo: "fazemos as bolas, que é a única coisa que a gente pode fazer previamente. Em seguida... óleo para dentro, bolas para dentro. Em seguida, vai ali para cima para escorrer o máximo. Em seguida, amarrado [à estrutura]".11
Exceção ao modelo de estrutura metálica é o Facho da Ladeira, preparado diretamente no chão com lenha empilhada ao longo do Caminho das Voltinhas. Zé Maria, do Facho da Pontinha da Vila, confirma a antiguidade desta modalidade:
“houve sempre na ladeira, que chamam zig-zag, isso foi sempre feito no chão e ainda hoje é feito no chão.”12
A iniciação na prática costuma acontecer em idade precoce. Carlos Daniel (Facho do Paraíso) testemunha:
“já participo desde os meus 9 anos de idade, vinha para aqui com as pessoas mais velhas, sempre gostei de ver os fachos e participar deles, hoje é uma tradição centenária, já os antigos diziam que isto era feito dentro de ribeiras com trapos que pediam lá nas casas para fazer os fachos.”13
O sábado do acendimento é um dia de intensa azáfama. Desde a manhã, foguetes são lançados como anúncio festivo; ao meio-dia, uma salva especial marca um dos momentos mais festivos para os que já se encontram a preparar a grande hora. O som do búzio junto a cada facho é um dos adereços etnográficos mais simbólicos do ritual.
Pelas 21h30, ao repique solene dos sinos da Igreja Matriz e com uma salva de foguetes, os fachos são acendidos em simultâneo. A imprensa regional documenta que "cerca de 3 mil quilos de desperdício embebidos em óleo queimado deram forma às imagens que iluminaram as encostas da cidade de Machico. Um espetáculo presenciado por milhares de pessoas".14
Os fachos ardem durante cerca de trinta minutos e apagam-se espontaneamente. Segue-se a missa da vigília na Igreja Matriz. No domingo à tarde, a procissão eucarística encerra o ciclo festivo. Para José Martins Júnior, a dimensão simbólica da manifestação ultrapassa o espetáculo visual:
“os Fachos são um documentário, é a terra a cantar, é um livro aberto, um livro vivo, aberto, da história.”15
A abertura da prática à comunidade alargada é sublinhada por Agostinho Canadá, com décadas de participação ativa:
“Já estou no facho há uns 40 e poucos anos, aqui e acolá [...] e hoje o facho é de todos, é para todos, é do sítio.”16
Mário Franco (Facho da Graça) articula a coexistência do popular e do religioso:
“é popular e religiosa. Este é mais popular no sentido que no sábado todos os sítios, como vê que fazem, aderem e depois pertence também ao factor religioso porque a igreja ajuda e luta muito para que nós consigamos ter este espetáculo aqui.”17
Os motivos iconográficos dos fachos condensam duas leituras que se entrelaçam na identidade de Machico. A perspetiva religiosa é clara para a historiadora Isabel Gouveia:
“a luz dos fachos ilumina a luz de Cristo, a luz divina [...] portanto, a própria iluminação dos fachos na festa do Santíssimo Sacramento [constitui uma forma de louvor].”18
A dimensão marítima é igualmente fundamental: o Cón. Manuel Ramos vê nas caravelas e nos peixes "sinais do trabalho dos pescadores, sobretudo, antigamente, mais do que hoje, isto é uma terra pescatória".19 A natureza essencialmente ígnica do facho é sublinhada por José Maria Andrade, que resistiu à eletrificação da prática:
“porque a lâmpada não transmite a mesma "vida", aquele ato de estar vivos.”20
Este argumento revela que o fogo não é apenas uma técnica, mas um valor simbólico insubstituível da manifestação — a marca de uma comunidade que, na sua expressão de fé, mantém viva a memória do perigo e da resposta coletiva.
A transmissão intergeracional é identificada pelos participantes como a garantia de continuidade da manifestação e como o seu traço mais característico. O Cón. Manuel Ramos observa:
“passando pelos diversos fachos, encontramos as gerações mais novas, os pais procuram também envolver os filhos, outros familiares, e há um interesse muito grande dos jovens em colaborar, em participar [...] há volta de três centenas de pessoas, de jovens e h[omens mais velhos].”21
Alberto Olim, presidente da Junta de Freguesia, confirma o padrão:
“os jovens participam muito, vemos que esta é uma tradição que passou de pais para filhos ou de avós para netos, os jovens participam e têm aquele entusiasmo, acho que todo o sítio tem o brilho de querer ser o melhor facho.”22
A narrativa pessoal de João Costa (Facho da Ladeira) revela como opera esta iniciação:
“Conheci os Fachos na minha juventude. Tinha 12 ou 13 anos. Talvez menos. [...] e a verdade é que os Fachos era sempre algo que tinha a ver com o espírito de grupos [...] e achei que era algo interessante, porque advém de uma tradição antiga, da nossa história, daquilo que aconteceu ao nosso povo no passado.”23
Duarte Sousa (Facho da Misericórdia) expressa a confiança coletiva na perpetuação da manifestação:
“E a tradição nunca mais acaba. Pelo menos aqui, na Misericórdia, vai ser assim.”24
7.3. Manifestações Associadas
A manifestação associa-se, antes de mais, à Festa do Santíssimo Sacramento de Machico — festividade religiosa no seu todo, celebrada no último fim de semana de agosto —, que a enquadra e acolhe: os Fachos constituem o momento mais expressivo da sua vigília, na noite de sábado, à qual se segue, no domingo, a procissão eucarística. Associa-se ainda à Festa do Senhor dos Milagres (outubro), em cuja procissão noturna se recorre à iluminação por archotes, evocativa dos fachos, e, pontualmente, a outros contextos festivos locais, como o Mercado Quinhentista de Machico.
No plano internacional, a manifestação encontra paralelismo com as festas galegas do fogo (Espanha), com destaque para a Festa dos Fachós de Castro Caldelas (Ourense), documentada desde meados do século XVIII e de cariz religioso, e para a mais recente Festa dos Fachos de Redondela (Pontevedra), de raiz oitocentista e associada ao solstício de verão. Todas partilham a linguagem do fogo e a dimensão comunitária, embora distintas na forma e no enquadramento.
Contexto de transmissão
●Respondido8. Contexto de Transmissão
8.1. Estado: Ativo
8.2. Descrição
A transmissão da manifestação é um processo social complexo, que combina aprendizagem formal e informal, oralidade, escrita e representação audiovisual, e que depende das estruturas informais de que vive o certame — os seus rituais e liturgias próprias são a pedra basilar da subsistência da transmissão deste património. Descrevem-se em seguida as principais dimensões deste processo.
a) Aprendizagem formal e informal — A base histórica e os fundamentos da tradição são transmitidos formalmente em contextos educativos e culturais, através de relatos orais e escritos e da difusão de documentários e vídeos alusivos ao evento. A componente prática — a compreensão profunda da manifestação e da sua execução — transmite-se informalmente, de geração em geração, pela participação ativa nos preparativos e no trabalho in loco até ao dia do acendimento, sendo fundamentais os testemunhos e as narrativas orais dos membros mais antigos da comunidade. Associam-se ainda grupos ligados à celebração, como a Banda de Machico, que anima a festividade com repertório próprio referente aos Fachos.
b) Oralidade e escrita — A tradição está fortemente ancorada na oralidade: histórias, memórias e técnicas transmitem-se de boca em boca. A componente escrita — registos históricos, imprensa regional e a documentação produzida no âmbito do presente processo — consolida a base teórica da manifestação, proporcionando complementaridade entre a oralidade e a escrita.
c) Acesso condicionado — Embora o espetáculo seja observado e apreciado por milhares de pessoas, o acesso ao conhecimento mais profundo e às práticas específicas está condicionado à participação ativa na comunidade e ao respeito pelas tradições, pelos fachos e pela sua história. Os segredos e as técnicas mais intricadas, bem como a delegação de responsabilidades nas tarefas mais exigentes, estão reservados aos membros que demonstram um compromisso significativo com a tradição.
d) Rituais de passagem — As tarefas são distribuídas por faixas etárias: a aprendizagem começa informalmente na infância, com as atividades mais ligeiras, o acompanhamento dos mais velhos e os testemunhos orais; à medida que os indivíduos crescem e demonstram interesse e compromisso, recebem tarefas e responsabilidades progressivamente mais complexas. Esta lógica de iniciação gradual é o mecanismo central de formação de novos detentores, e a participação de longo prazo é determinante para a manutenção da comunidade e da transmissão da tradição.
e) Momentos temporais da comunidade — A transmissão ocorre em momentos específicos, alinhados com as festividades anuais. O período de preparação da festa é a janela crucial em que os conhecimentos são partilhados e as práticas ensinadas; o calendário comunitário organiza-se de forma espontânea e expedita para garantir a disponibilidade de todos nessa altura — organização que é, ela própria, vital para a preservação e continuidade da tradição.
f) Lugares e elementos culturais — A transmissão decorre em espaços próprios — os locais de preparação de cada grupo e os sítios onde os fachos se erguem —, abraçando também o espaço público, ainda que aí de forma mais superficial. Elementos histórico-culturais de cariz militar, como a Vigia do Pico do Facho e a toponímia associada, servem de palco à transmissão e estabelecem a ligação entre a prática, a história e a identidade da comunidade.
g) Articulação com outras manifestações do património imaterial — A transmissão dos Fachos está entrelaçada com outras manifestações do património imaterial: a integração plena na Festa do Santíssimo Sacramento, que enquadra liturgicamente a prática, a incorporação de símbolos cristãos nos motivos iconográficos e, de forma esporádica, a articulação com outras festividades, como o Senhor dos Milagres. Este conjunto reforça os laços entre a manifestação e a riqueza cultural e religiosa da comunidade de Machico, contribuindo para a vitalidade e continuidade da tradição.
8.3. Modo(s): Oral; Escrita; Visual
8.4. Agente(s): Participantes; Comunidade local; Paróquia de Machico; Associação dos Fachos; Instituições educativas e culturais; Grupos familiares
8.5. Idioma: Português
Origem / Historial
●Respondido9. Origem/Historial
1. Das vigias militares à tradição popular (séculos XVI-XVIII)
O estudo de referência de Albino Luís Nunes Viveiros enquadra a génese da tradição no contexto da pirataria atlântica: durante os séculos XVI a XVIII, o Arquipélago da Madeira foi alvo preferencial de ataques e pilhagens de corsários e piratas — ficaram célebres o ataque dos franceses ao Funchal, em 1566, e o dos argelinos à Ilha do Porto Santo, em 1616. Foi neste quadro de ameaça permanente que emergiu, no seio das comunidades, a necessidade urgente de planear estratégias de alarme e defesa da costa, das populações e dos seus bens:
“No contexto militar, o primeiro sistema de alarme e defesa no Arquipélago da Madeira foi os fachos. Uma estratégia de defesa utilizada entre os séculos XVI e XVIII. Nos inícios do séc. XIX, apesar da Madeira se encontrar sob a ocupação inglesa, o sistema primitivo de defesa implementado na Madeira, ainda era utilizado pelas gentes locais.”25
O historiador Rui Cárita situa o surgimento formal do sistema na segunda metade do século XVI:
“Em [15]70 surgem os primeiros regimentos de vigias e facheiros. Os facheiros são profissionais militares, existem desde o século XVII, e é também um ofício de família, ou seja, passa de pais para filhos, como os ferreiros, como os padeiros, como os carpinteiros.”26
Complementando esta perspetiva, a historiadora Isabel Gouveia identifica evidências documentais de ataques corsários a Machico num período ainda anterior:
“No século XVI, por volta de 1552, encontrámos um documento na Torre do Tombo [...] em que há uma carta do Simão Gonçalves da Câmara, portanto, capitão do Funchal, em que avisa o rei que um tal francês, um corsário francês chamado Pedro Pau e uma armada [atacou a costa] [...] isto leva-nos a provar que realmente Machico também sofreu ataques de corsários.”27
A investigação de Viveiros documenta com precisão o quadro normativo deste sistema — e o lugar primacial que Machico nele ocupou. A 16 de abril de 1567 entrou em vigor o Regimento das Vigias, decretado pela Rainha D. Catarina, que governava o Reino durante a menoridade de D. Sebastião. Esta medida régia originou, em primeiro lugar, a instalação de vigias na Capitania de Machico, atendendo a que a vila era a mais vulnerável a ataques de piratas e corsários. O Regimento atribuía a coordenação da defesa aos oficiais do concelho e ao capitão e organizava as vigias em turnos: de dia, dois homens, comunicando o alarme às populações por sinais de fumo ou através de fachos; de noite, três homens, havendo sempre um arcabuz pronto a sinalizar o perigo na costa. Por alvará de 1569, D. Sebastião estabeleceu a obrigatoriedade deste serviço de vigilância — «serviço cívico e de vital importância para a segurança e bem-estar das populações» —, de que ninguém ficava isento.28
Foi também em Machico que, já no domínio filipino, se criou o cargo de Facheiro de Machico. Aos facheiros «cabia a responsabilidade de ter lenha e pinhas na coroa do pico, afim de atear-lhe fogo à noite», alertando as populações de que «velas inimigas estavam à vista» e convocando os demais «por toques de sino e búzios», exigindo-se a todos que pegassem em armas ou se colocassem em fuga, conforme a situação de cada povoado29 — passagem que documenta, desde a génese militar da prática, o uso do búzio que ainda hoje permanece como adereço ritual do acendimento.
A descrição coeva destes postos é dada pelas Ilhas de Zargo: as vigias «chamavam-se indistintamente Fachos quando instaladas em pontos altos da orla marítima ou do interior e cujo rebate era dado às populações por meio de fachos ou fogueiras», que se acendiam «desde o entardecer para avisar a gente da ordenança», convocando depois «por toques de sino e búzios os demais, exigindo de todos armas na mão ou a fuga, conforme a situação de cada povoado». A partir de 1570, as Ordenanças substituíram as Vigias — data que coincide com o registo de Rui Cárita sobre os primeiros regimentos. O original do Regimento de 1567 encontra-se registado no tomo V, fls. 105, do Arquivo da Câmara do Funchal .30
O papel dos fachos neste sistema de alerta é sintetizado por José Martins Júnior: "eram verdadeiros instrumentos de aviso à população quando os corsários [se aproximavam]".31 O cónego Manuel Martins, por sua vez, sublinha a função comunicacional de rede:
“no início, estas fogueiras, que não tinham estas formas, eram fogueiras que pretendiam dar sinal à população quando havia corsários, os piratas, e, portanto, davam o sinal de uma montanha para outra.”32
De acordo com Rui Cárita, "desde o XVII, uma grande vigia, no alto do pico do Facho — a única que na Madeira subsiste —" permanece testemunho arquitetónico deste sistema.33 A presença do topónimo "Pico do Facho" em Machico, no Porto Santo e nas Ilhas Desertas documenta a extensão e a importância desta rede de vigilância costeira.34
Viveiros reconstitui a dupla função e a geografia desta rede: os fachos asseguravam a defesa e a comunicação entre os diferentes núcleos populacionais e inter-ilhas. O Pico do Facho de Machico comunicava com os picos homónimos da Ilha do Porto Santo — Pico do Facho e Pico do Facho da Malhada —, com as Ilhas Desertas, que conservam o topónimo Ilha do Facho, e ainda com o facho do Pico do Telégrafo, na freguesia do Caniço. Apoiando-se no mapa de comunicações proposto por João Adriano Ribeiro, o autor documenta que o facho de Machico comunicava com outro estabelecido em S. Jorge, prosseguindo a rede pelos Lameiros (Porto Moniz), pela Ponta do Pargo, pela Calheta, pelo Pico Zargo (Lombada da Atouguia) e pelo Pico do Facho de Câmara de Lobos, nas proximidades do Cabo Girão.35 Regista ainda a existência de um posto de vigia na Deserta Grande, criado no início do século XVII, suporte de um canal tripartido de comunicação entre Machico, Porto Santo e Ilhas Desertas.36
O sistema dispunha mesmo de um código de sinais: em 1603 ficou estabelecido um posto de sinais no Pico da Castanheira, o ponto mais elevado da Ilha Deserta, «numa convenção pelo número de fogueiras», dando outro posto o rebate no «Pico do Castanho ou do Facho, em Machico».37 Alberto Vieira documenta que esta rede de sinais luminosos circulava ao longo de toda a orla costeira e terminava no Pico da Cruz, em São Martinho, também conhecido por Pico do Telégrafo.38
O mesmo estudo situa a prática num quadro nacional mais amplo — há referências a fachos no litoral norte de Portugal, onde no século XIX eram conhecidos por «fachos da borda mar» na Província do Minho, e a toponímia conservou-os na Ilha Terceira, nos Açores —, sublinhando, porém, que foi em Machico que a antiga estratégia militar se perpetuou como tradição viva.39
As fontes permitem ainda balizar o ocaso do sistema. Aos condestáveis das fortalezas de Machico — São Roque, Nossa Senhora do Amparo (1705) e São João Baptista (1708) — «competia dar aviso, com fachos ou búzios aos moradores da vila e seu termo que andavam corsários na costa»; foi condestável da Fortaleza de São João o pai do poeta machiquense Francisco Álvares de Nóbrega (n. Machico, 1773), cujo nome batiza hoje o miradouro onde principia o percurso do Facho da Ladeira.40 Em 1805, o governador D. Diogo Pereira Forjaz Coutinho deu ainda regimento à organização da comunicação por sinais ópticos41 e, nos inícios do século XIX, sob a ocupação inglesa, o Governador da Madeira emitia ordens para que os fachos se mantivessem vigilantes a piratas e corsários.42 O Elucidário Madeirense regista que a usança dos facheiros durou precisamente «até o governo de D. Diogo Pereira Forjaz Coutinho».43
2. A integração na Festa do Santíssimo Sacramento (início do século XX)
Com o declínio da ameaça marítima, os fachos perderam a sua função primária. A sua ressignificação religiosa é um processo que Isabel Gouveia documenta como anterior ao início do século XX:
“já aparecem referências que já havia fachos a iluminar a festa do Santíssimo Sacramento [...] Explicar, propriamente dito, a ligação dos fachos à festa [do Santíssimo Sacramento] é difícil.”44
Manuel Spínola situa o início da associação simbólica no sagrado:
“os fachos começam aqui a associar-se ao Sagrado Coração de Jesus [e às festas religiosas da Paróquia de Machico].”45
A imprensa regional regista que "há cerca de um século, por volta de 1903, a igreja, à festa do Santíssimo Sacramento, integrou esta forma de iluminação" (RTP Madeira).46 Os registos históricos confirmam: em agosto de 1903 e 1905, a Festa do Santíssimo Sacramento foi abrilhantada à noite com fachos de lenha e pinhas; em 1904, a mesma ornamentação foi dada à festividade de São Roque.47
Viveiros recupera do Elucidário de Machico a definição que une as duas eras da prática, descrevendo os fachos como uma
“espécie de fogueiras feitas com pinhas, que tiveram origem no tempo das pilhagens dos corsários e que o povo, na sua simplicidade espontânea, acendia e continua a acender, mas em menor quantidade, na Festa do Santíssimo Sacramento em Machico, para homenagear o Redentor.”48
Do mesmo estudo consta uma descrição de época dos fachos do início do século XX, então
“… constituídos por montinhos de pinhas crepitantes, em que as raparigas andaram em longa faina pela serra para as poderem reunir. Antigamente, as capas da cebola pelas encostas, transluzia na noite da véspera, contando uma torcida de estopa embebida na minguada concha de azeite. E o vale tremia todo em cintilações e espasmos de luz, em labaredas reinosas num aspecto deslumbrante.”49
Já em meados do século XX, a obra Ilhas de Zargo, citada por Viveiros, documenta a forma comunitária da tradição — o toque de búzios, a romaria noturna à serra e a disposição alegórica que prefigura a prática atual:
“Consta de fogueiras, queima de pinhas e toros regados de petróleo, que o povo vai buscar à serra dias antes da festa. Para isso reúne-se ao toque de búzios, partindo de noite em romaria e regressando numa enorme bicha, ao som de toques e descantes, as pinhas dentro de sacos, toros velhos às costas e feixes de ramagens secas à cabeça. A queima faz-se na véspera, ao anoitecer, nas encostas sobranceiras à vila, dispostos os fogachos em figuras alegóricas, letras, nomes e desenhos alusivos à festa.”50
João Adriano Ribeiro documenta a escala destas primeiras edições: em 1903 houve fachos «em quase todos os picos da freguesia, o que fez maravilhar a todos» e, em agosto de 1905, «em 18 pontos dos mais salientes e elevados da freguesia de Machico, foram acesos os tradicionais fachos a lenha e pinhas, os quais produziram um efeito deslumbrante».51 O mesmo autor sublinha o enraizamento da prática: «Os fachos faziam parte das vivências da população de Machico, pois estava-lhes impregnado no sangue, devido às muitas vezes em que foi dado o alarme da aproximação de inimigos».
Zita Cardoso descreve este processo como uma «sobrenaturalização» das fogueiras, com os machiquenses a criar «figuras alegóricas como custódias, barcos, corações, cruzes, letras e outros desenhos numa atitude de louvor e acção de graças».52 A mesma autora conserva a geografia primitiva dos motivos: a custódia fazia-se inicialmente na encosta do Sítio da Nóia, o coração na furna da Lapeira e a barca nos sítios da Misericórdia, Pontinha e Serra d’Água; as Sete Ladeiras — primitivo caminho do concelho que ligava Água de Pena a Machico — eram da responsabilidade do Sítio da Ladeira, com fogueiras em zigue-zague desde o miradouro [Francisco Álvares de Nóbrega] até à estrada nacional, enquanto nas margens da ribeira do caminho do cais os fachos eram acesos pelos marítimos.
A descrição de Carlos Cristóvão fixa a imagem de conjunto e a singularidade da manifestação: «Na concha formada pelo vale de Machico, ficavam semeados esses fachos, formando místicos desenhos como cruzes, cálices, corações, custódias e ainda peixes, barcos, zigue-zagues» — «uma prova espontânea da fé pura e sã do povo, exclusivamente apresentada na Madeira, na Festa do Domingo do Senhor de Machico».53
3. Declínio e revitalização (décadas de 1960-1970)
A tradição conheceu um período de decadência nas décadas de 1960-70, provocado pela divisão da Freguesia de Machico em novas paróquias: Ribeira Seca (1961/64), Piquinho (1962/67) e Preces (1964/68). A fragmentação administrativa das comunidades levou à extinção de vários fachos. A revitalização deve-se em grande parte ao ex-pároco Pe. António Martinho, que Viveiros identifica como «o principal impulsionador do renascer da tradição dos fachos em Machico», com papel preponderante na dinâmica sociocultural que a população ganhou no ato revitalizador da tradição.54
Este declínio está registado em fontes coesas. Carlos Cristóvão, escrevendo em 1989, lamentava que, com o aumento do número de paróquias, os fiéis das novas circunscrições «já não acendem fachos no sítio onde moram ou nas serras vizinhas», apelando a que nunca deixassem extinguir-se um espetáculo «original e não só original, pleno de beleza e espiritualidade».55 Zita Cardoso confirma a resiliência comunitária: «Houve anos em que estes perderam a sua beleza, mas como o povo não perde as suas tradições na totalidade, há sempre carolas que continuam esta actividade».56
O caso do Facho do Poço do Gil ilustra estas dinâmicas de extinção e ressurgimento: João Olival narra que
“houve uma certa divergência entre a diocese e a paróquia da Ribeira Seca, visto que atualmente já está resolvido esse dilema, então as pessoas resolveram aderir à tradição. Infelizmente, como há muitos anos já não era feito o facho, muitas pessoas não sabiam que ia ser feito [...] partiu ali de cima de um responsável que assumiu o projeto.”57
José Martins Júnior recorda a geografia social original da prática:
“hoje em dia, os fachos são feitos praticamente lá em baixo, na chamada "Paróquia da Vila"; [mas] os fachos eram uma prerrogativa dos campos.”58
4. Evolução técnica e continuidade identitária
A evolução dos materiais é um fio condutor da história recente da manifestação. Manuel Spínola descreve a transição técnica: "as estruturas dos fachos são agora todas em barras de metal".59 José Maria Andrade reconstrói o percurso histórico:
“todos os fachos funcionavam com lenha, depois passou a ser com uns trapos [...] e depois passou para as bolas de desperdício.”60
Zita Cardoso regista a mesma transição material: «Com o evoluir dos tempos alterou-se o material e o modo de feitura dos fachos», passando a utilizar-se «bolas de esperdício da “casa da luz”», montadas sobre armações com os desenhos a figurar.61
O estudo de Viveiros, publicado em 2007, regista um momento charneira desta evolução: a substituição progressiva das estruturas de varas de madeira — que grupos de jovens e adultos iam buscar à serra dias antes da queima — por estruturas metálicas que permanecem inalteráveis de ano para ano. O mesmo estudo quantifica a escala então atingida pela prática: nesse ano, segundo dados disponibilizados pela paróquia, foram acesas cerca de nove mil bolas de algodão embebidas em óleo queimado. O autor documenta ainda a ornamentação do antigo caminho vizinhal entre o Miradouro Francisco Álvares de Nóbrega e o Sítio do Pé da Ladeira e, em tempos, de parte do Caminho do Leiria, entre o estaleiro e o cais, «de forma a acompanhar os outros fachos».62
Mas a persistência do fogo como elemento insubstituível é clara. A eletrificação parcial de alguns fachos suscitou resistência dos participantes mais tradicionais. José Martins Júnior pronunciou-se sobre o facho elétrico do Piquinho: "Até acho que aquele facho elétrico, que está no sítio do Piquinho, desdiz".63 Esta resistência confirma que o fogo não é apenas uma técnica, mas um valor simbólico e identitário que a comunidade defende ativamente como parte nuclear do que os Fachos são e representam.
II. Documentação
Bibliografia
●Respondido10. Bibliografia
AA.VV. (2005). Inventário do Património Imóvel do Concelho de Machico. Machico: Câmara Municipal de Machico / ARCHAIS.
CARDOSO, Zita (2001). Machico Cidade Histórica. Machico: ACAPORAMA / Casa do Povo de Machico.
CRISTOVÃO, Carlos (1989). Elucidário de Machico. Machico: Câmara Municipal de Machico.
GHEERBRANT, Alain; CHEVALIER, Jean (1994). Dicionário dos Símbolos. Lisboa: Editorial Teorema.
GOMES, Alberto F. (pref. e notas) (2001). Vida e Obra de Francisco Álvares de Nóbrega. [Funchal]: O Liberal.
MENESES, Carlos Azevedo; SILVA, Pe. Fernando Augusto da (1998). Elucidário Madeirense, vol. I e II. Funchal: Secretaria Regional do Turismo e Cultura.
PEREIRA, Eduardo C. N. (1989). Ilhas de Zargo, vol. I e II. Funchal: Câmara Municipal do Funchal.
RIBEIRO, João Adriano (2001). Machico — subsídios para a história do seu concelho. Machico: Câmara Municipal de Machico.
SARMENTO, Alberto Artur (1953). "Machico". In Freguesias da Madeira. Funchal: Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal, pp. 45-52.
VERÍSSIMO, Nelson (2000). Relações de Poder na Sociedade Madeirense no século XVII. Funchal: Secretaria Regional do Turismo e Cultura.
VIEIRA, Alberto (2005). A Freguesia de São Martinho. Funchal: Centro de Estudos de História do Atlântico.
VIVEIROS, Albino Luís Nunes (2007). «Os fachos, um acto de significado na memória colectiva e tradição etno-religiosa em Machico». Revista de Arqueologia e Património Cultural da Ilha da Madeira — ARCHAIS, Associação de Arqueologia e Defesa do Património da Madeira. Texto também disponível no sítio da Associação dos Fachos.
Fontes escritas
●Respondido11. Fontes Escritas
Imprensa e fontes documentais: DNOTICIAS.PT (15 jan. 2018 — «JPP defende protecção da tradição dos fachos em Machico»; 21 jul. 2020 — «PS apresenta voto de louvor à tradição dos Fachos de Machico»); Funchal Notícias (20 ago. 2019 — «Fachos em Machico e cortejo do fogo na Camacha no próximo sábado»); Junta de Freguesia de Machico (23 ago. 2022 — «Machico: Custódia volta a brilhar»); Ecos de Machico (s.d. — «Pico do Facho», cronologia histórica da vigia e do topónimo). (ver Anexo II-B/6)
Fontes orais
●Respondido12. Fontes Orais / Transcrições
Associação Cultural e Recreativa do Facho da Ladeira (2025). Transcrições todos800 — Transcrições de depoimentos e reportagens sobre os Fachos de Machico [documento interno de trabalho, 882 entradas, 3 fontes audiovisuais].
Fotografia
●Respondido(ver Anexo II-B/1)
Filme
●RespondidoFala-me dos Fachos (real. Hugo Olim; prod. Associação Cultural e Recreativa do Facho da Ladeira, 2021); Fachos — Uma Tradição Secular (Eduardo Costa Produções Audiovisuais / Mercado Quinhentista, 2018); Excertos de reportagens da RTP Madeira sobre os Fachos de Machico (diversas edições, arquivo RTP Madeira). (ver Anexo II-B/2)
Som
◐Em aperfeiçoamentoRegistos áudio em recolha (entrevistas a detentores).
Registos áudio de depoimentos e entrevistas a detentores, em recolha no âmbito do presente processo de aperfeiçoamento (a integrar no Anexo II-B/3).
Outra documentação
●RespondidoCultura Madeira — «Tradição Secular dos Fachos» (2018, Direção Regional da Cultura, Governo Regional da Madeira), projeto de divulgação do património cultural imaterial; documentação gráfica de comunicação e divulgação da manifestação (cartazes, programas, conteúdos digitais — a integrar no Anexo II-B/5).
III. Direitos Associados
Tipo de direitos
●RespondidoDireito consuetudinário, decorrente da transmissão comunitária da tradição: são os grupos de cada facho e os seus responsáveis que detêm e exercem a prática, respondendo pela sua organização e segurança perante a lei. A manifestação tem o seu enquadramento espiritual na Festa do Santíssimo Sacramento, promovida pela Paróquia de Machico, sem que dessa relação decorra titularidade eclesiástica sobre a prática. Acrescem os direitos de propriedade intelectual sobre a documentação audiovisual que integra o processo (titulares: Hugo Olim; Eduardo Costa Produções Audiovisuais).
Detentor
●RespondidoAs comunidades dos sítios que concebem, constroem e acendem os fachos, detentoras coletivas do saber e da prática — designadamente os grupos ativos dos sítios da Ladeira, da Misericórdia, da Graça, da Pontinha (Vila e Serra), da Banda d'Além, do Poço do Gil, do Paraíso e da Serra d'Água —, representadas, para efeitos do presente pedido, pela Associação Cultural e Recreativa do Facho da Ladeira.
IV. Património Associado
Património cultural
●Respondido19. Património Cultural
Identificam-se em seguida os bens patrimoniais associados à manifestação, caracterizando-se a sua relação com a prática dos Fachos. A respetiva documentação visual integra o Anexo II-B.
19.1. Património Cultural Móvel
Estruturas metálicas dos fachos — armações que, na maioria dos sítios, são hoje permanentes e construídas em barras de metal, sobre as quais se modela anualmente o motivo iconográfico (custódias, cruzes, cálices, caravelas, peixes). Constituem o suporte material da figura de fogo, sendo fixas no solo e reparadas entre edições quando necessário.64
Materiais de construção — o desperdício de algodão (moldado em bolas), o arame e o óleo queimado em que as bolas são embebidas antes de fixadas à estrutura. A sua aquisição é centralizada pela Associação e pela Paróquia, junto de empresas regionais, e distribuída pelos grupos segundo as necessidades do facho de cada sítio.65
Búzio ritual — instrumento de sopro que outrora terá servido a comunicação e que hoje é tocado junto a cada facho, constituindo um dos adereços etnográficos mais simbólicos do ritual de acendimento.
19.2. Património Cultural Imóvel
Vigia do Pico do Facho — pequeno edifício de arquitetura militar, de planta circular em pedra basáltica e cal, com porta elevada em cantaria, janela com moldura de cantaria vermelha e tapa-sol verde, coberto por cúpula em alvenaria e com escada lateral em pedra seca. Datável dos séculos XVII-XVIII, é a única vigia de facheiros que chegou aos nossos dias na Madeira: dela se acendiam fogueiras de lenha e pinhas para alertar as populações da aproximação de piratas e corsários, comunicando inclusive com a ilha do Porto Santo. Constitui o testemunho arquitetónico direto do sistema defensivo que está na origem dos Fachos, tendo sido proposta para classificação como Imóvel de Interesse Municipal.66
Caminho das Voltinhas (Pé da Ladeira) — caminho real histórico, antigamente denominado Caminho do Rei, em ziguezague, calcetado com pedra basáltica irregular, que sobe a Rocha da Queimada dando acesso à freguesia de Água de Pena e que durante séculos foi a principal via terrestre de ligação à então única cidade, mantendo-se como alternativa à viagem marítima até inícios do século XX (AA.VV., 2005, p. 126). É ao longo deste caminho que se ergue, diretamente no solo, o Facho da Ladeira — a modalidade mais antiga da tradição. Foi proposto para classificação como Sítio de Interesse Municipal.67
19.3. Património Cultural Imaterial
Saberes-fazer associados — o conjunto de conhecimentos técnicos transmitidos pela oralidade e pela prática: a conceção do motivo iconográfico, a construção e montagem da estrutura, a preparação das bolas de desperdício embebidas em óleo e a sua disposição para «desenhar» a figura de fogo, bem como a gestão da segurança no acendimento. Próprios de cada sítio, constituem o núcleo imaterial da manifestação.68
Simbologia e toque do búzio — os motivos iconográficos (custódias, cruzes e cálices; caravelas e peixes) condensam a dupla leitura, de fé e de mar, que estrutura a identidade da prática; a esta dimensão associa-se o toque ritual do búzio junto a cada facho.69
Património natural
●Respondido20. Património Natural
Pico do Facho — elevação basáltica sobranceira à vila, a 330 metros de altitude, que dá nome e lugar à tradição. É reconhecido como geossítio pelo seu afloramento de basalto em laje (disjunção em laje, depósitos piroclásticos intersetados por filões), recurso outrora explorado para pavimentação de ruas e ornamentação. Pela visibilidade que oferece sobre a baía, foi o ponto natural eleito para a vigia e para o acendimento dos fachos de alerta.70
Vale de Machico — vale em U aberto, atípico no contexto da ilha, com cerca de 25 km² e percorrido pela Ribeira de Machico. As suas encostas, de visibilidade recíproca, constituem o palco natural insubstituível do espetáculo luminoso e determinam a localização própria de cada facho.71
— Fim do Anexo I —